Pesquisar este blog

sexta-feira, 5 de junho de 2009

ver vendo

Ver Vendo

Otto Lara Rezende



De tanto ver, a gente banaliza o olhar

-vê... não vendo.

Experimente ver, pela primeira vez,

o que você vê todo dia, sem ver.

Parece fácil, mas não é:

o que nos cerca, o que nos é familiar,

já não desperta curiosidade.

O campo visual da nossa retina

é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.

Se alguém lhe perguntar o que você vê no caminho,

você não sabe.

De tanto ver, você banaliza o olhar.

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio

pelo mesmo hall do prédio do seu escritório.

Lá estava sempre, pontualíssimo, o porteiro.
Dava-lhe bom-dia e, ás vezes,

lhe passava um recado ou uma correspondência.

Um dia o porteiro faleceu. Como era ele?

Seu rosto? Sua voz? Como se vestia?

Não fazia a mínima idéia.

Em 32 anos nunca conseguiu vê-lo.

Para ser notado, o porteiro teve que morrer.

Se um dia, em algum lugar estivesse uma girafa

cumprindo o rito, pode ser, também,

que ninguém desse por sua ausência.

O hábito suja os olhos e baixa a voltagem.

Mas há sempre o que ver:

gente, coisas, bichos. E vemos?

Não, não vemos.

Uma criança vê que o adulto não vê.

Tem olhos atentos e limpos

para o espetáculo do mundo.

O poeta é capaz de ver pela primeira vez,

o que de tão visto, ninguém vê.

Há pai que raramente vê o filho.

Marido que nunca viu a própria mulher.

Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos...

é por aí que se instala no coração

o monstro da indiferença.

Nenhum comentário:

Postar um comentário